O vácuo entre as tendências tecnológicas e a realidade

Gosto de acompanhar tendências tecnológicas, pois predizem o futuro, praticamente o direcionam, por assim dizer.

Fico imaginando as pessoas que criam esses ciclos, a base estatística que usam, em quais países estão buscando informações, qual o porte e segmento das empresas e, principalmente, a quem estão entrevistando para montar os gráficos.

O relatório do Gartner apresenta algumas tendências bem interessantes para os próximos anos:

  • Em 2020, 100 milhões de consumidores vão comprar em realidade aumentada
  • Em 2020, 30% das sessões de navegação na internet serão feitas sem telas
  • Em 2019, 20% das marcas vão abandonar seus aplicativos mobile
  • Em 2020, algoritmos de inteligência artificial vão modificar o comportamento de 1 bilhão de trabalhadores

Acho tudo isso muito interessante e espero fazer parte de todas essas mudanças, mas me lembro bem que 2007, quando fiz uma pós em tecnologia, já se falava de coisas que hoje estão, vagarosamente, tomando lugar na realidade, como: Aplicativos móveis, analytics, iOT, realidades aumentada e virtual etc. Ou seja, as coisas podem demorar um pouquinho mais para acontecer.

Para que não achem que falo somente pelo Brasil, ano passado estive no World of Watson nos EUA e, para minha frustração, vi poucas empresas com aplicações concretas de inteligência artificial. Dentre dezenas de sessões conceituais, as aplicações mais chamativas ainda surfavam a onda do processamento de linguagem natural ou engatinhavam no mundo do Big data.

Tenho andado por muitas empresas de porte mundial com projetos de Transformação Digital e os desaceleradores que tenho identificado são longas cadeias hierárquicas, orçamentos austeros e processos de compras, digamos, ultrapassados.

Hierarquia

Geralmente, as áreas de Transformação Digital estão subordinadas à TI ou ao Marketing e, por isso, tem longos caminhos a percorrer até que uma decisão chegue em quem realmente tem poder para transformar o negócio. Algumas perdem tempo com conflitos internos enquanto a tecnologia segue avançando e acabam perdendo o timingpara emplacar a tão sonhada “experiência inovadora”.

Como a hierarquia não colabora, é preciso acomodar os interesses das mais diversas áreas, sejam eles quais forem. É nessa hora que acaba sendo aprovado algum “projeto pet” que, frequentemente, acaba não gerando retorno e causando a redução do orçamento para o período seguinte.

Neste artigo da Harvard Business, Baculard demonstra como o CEO deve se envolver na estratégia digital. Neste outro, da Digital Transformation Book, os autores comentam sobre quem deveria liderar a iniciativa, o CEO, o CIO ou o CMO. Neste último, Parakala comenta sobre o papel do CDO (Chief Digital Officer) e os mitos que cercam a transformação digital.

Orçamento

Montar um orçamento de tecnologia no momento em que vivemos é praticamente um trabalho de vidência.

Além da variação cambial, inflação e da escassez de recursos técnicos qualificados nas novas tecnologias, temos que decidir em quais projetos investir, observando o que nossos concorrentes vêm fazendo, supondo o que possam estar planejando para o próximo ano e apostando em quais tecnologias vão realmente liderar o futuro.

Na “mesa de apostas” ganha quem mede, se não é possível medir o futuro, é possível conter riscos estabelecendo thresholds. Outro dia assisti uma palestra do LAPIS (Luiz Augusto Pinheiro da Silva) em que comentava sobre como empresas decidem continuar ou não com projetos de plataformas de petróleo. Esses projetos sofrem com muitas variáveis, mas acompanham o Valor Presente Líquido de todo o ciclo de vida do investimento para tomar a decisão.

De qualquer forma, boa parte das empresas em processo de transformação digital não tem informações históricas para projetar uma meta realista, quanto mais para medir a efetividade de um investimento. Quando têm, são apenas dados em grande quantidade e baixa qualidade, pouco úteis para parametrizar uma análise de fluxo de caixa.

Processo de compras

Podemos até não saber exatamente o que fazer, mas uma certeza temos: queremos pagar o menor preço!

Neste ponto, tenho visto processos de concorrência que “encaixotam” os fornecedores de modo que, ao final, todos parecem ter mais ou menos os “mesmos diferenciais”. Também tenho visto massivas alocações em formato de bodyshop e até projetos “agile” com escopo, tempo e custos fechados, para garantir o orçamento.

Não podemos transformar consultorias em “fazedorias”, caso contrário, a quem vamos consultar? Precisamos contar com o apoio de quem navega livremente pelo mercado e se dedica a estudar o que existe e o que está por vir, não sendo assim, ficaremos presos às nossas próprias idéias.

Há que se avaliar um pouco melhor os custos médios antes de usar o porte para pressionar por preço, afinal, não é raro empresas entrarem na UTI por causa de um grande cliente, sobretudo as menores e, supostamente, mais inovadoras.

O vácuo entre as tendências tecnológicas e a realidade

Estamos todos um bocado ansiosos para que novas tecnologias sejam habilitadas para o consumo de pessoas normais, eu mesmo adoraria usar um carro autônomo, ainda que fosse compartilhado. Mas cada projeto inovador depende de tempo, dinheiro e de flexibilidade de atuação.

Ainda não estamos psicologicamente preparados para ter negócios “digitalmente eficientes”, temos medo de perder nossos empregos para robôs, de ser espionados por drones do exército americano (como se estivessem interessados nas nossas rotinas) ou do impacto que a próxima Uber ou AirBNB trará para nosso “estilo de vida”.

Ainda vamos para o escritório todos os dias, visitamos os clientes pessoalmente e gastamos boas horas processando dados que poderiam ser gerados automaticamente. Nossas áreas de TI ainda atendem chamados, o marketing ainda criam clippings manualmente e a operação ainda faz paradas de produção para realizar manutenções.

No mundo que virá tudo isso deixará de existir e tenho certeza que será bem mais divertido, mas o vácuo que existe entre as tendências tecnológicas e a realidade é, tão somente, nosso próprio comportamento.

A geração atual não têm o histórico de como as coisas eram no passado, nem está interessada em ouvir falar sobre cartas e telégrafos. Se um dia o lema da transformação foi “liberdade, igualdade e fraternidade”, hoje ele tem mais a ver com ubiquidade, usabilidade e confiabilidade.

Quem puder, transforme primeiro sua própria forma de pensar e, tão logo o tenha feito, comece a transformar seu negócio, antes que seja tarde. Telefonistas, datilógrafos e arquivistas que o digam.

Eli Rodrigues